Foi essa frase que ouvi ao avisar a uma amiga que ficaria três dias sem comer massa. No meu caso, eu realmente estava com excesso de sustância. Sustância no café, almoço e jantar. Dando uma rápida olhada pelos restaurantes aqui em Fortaleza dá até pra pensar que a cidade tem um pé na Itália porque é tanto rodízio de massa, tanta pizza solta e perdida rolando por aí que qualquer restaurante pé sujo que se preze já tem um forninho a lenha.
Eu tenho que confessar: amo massa. Não resisto a um macarrão com qualquer tipo de molho, um salgado quentinho um sanduiche mistão. E o melhor é a sensação que vem depois. A famosa sustância que me deixa completamente abarrotada pelo resto da tarde. Decidi começar a minha saga no domingo depois de ter uma discussão com o marido sobre o que era considerado massa. Ficou acertado que arroz PODE. Ele decidiu juntar-se à minha causa porque o povo unido jamais será vencido. Mas como eu estava redondamente enganada.
Prometi à minha amiga comer um bolo na Montmartre no final da tarde. Mas em vez do bolinho eu comi um salgado e uma torta, depois que ela me convenceu que eu já havia falhado na praia quando botei a farofa deliciosa no caldo do caranguejo. Falhei logo na primeira tentativa. O negócio é que eu já sabia que eu sou um projeto de peixe, ou talvez um projeto de tubarão porque eu morro feliz pela boca. Entrei nessa já sabendo que nesse ponto minha carne (ou será minha massa?) é mais fraca que a mente (ou será minha massa?).
Entrei em acordo comigo mesma sobre o que seria massa. Com o conceito formulado tendo em vista que massa aplica-se a qualquer produto proveniente ou misturado à farinha de trigo. Amanheci a segunda-feira de cabeça erguida. Afinal de contas, a bendita segunda é o dia internacional da dieta para mulheres que sempre comem demais no fim de semana.
Realmente a sustância ficou faltando em todos esses dias. Tive que usar minha parca imaginação juntamente com minha sôfrega geladeira para dar conta do desafio. Foi ovo no café, salada no almoço e no jantar, rocambole (leia-se enroladinho ou canudinho) de queijo e presunto para enganar a falta do pão e do sanduíche. Foi muito chocolate para tentar encher a pança. E finalmente chegou a noite da quarta-feira.
Estava feliz e conformada com minha barrinha de cereais de morango e uma leve sopinha no jantar quando deparei-me com a sala dos professores sendo invadida, literalmente invadida por bandejas de salgadinhos, hot dogs, pizza e bolos. Senti meus olhos brilharem quando vi o mini cachorro quente salpicado de batata palha me seduzindo. Toquei o papel que o envolvia sentindo a saliva agitar-se na boca e o frenesi de saborear o molhinho vermelho tão peculiar tomar conta da minha mente. Foi então que olhei para Osório que já dava boas mordidas no manjar e gritei:
“É massa!”
Ele me soltou um sorriso vitorioso do outro lado da sala e falou:
“Eu comecei domingo. Meus três dias passaram.”
Com as mãos trêmulas talvez mais de fome do que de raiva, soltei meu objeto de desejo de volta na bandeja e assisti de camarote todo mundo devorar as delícias na minha frente enquanto eu corria para a água e docinho.
Hoje ainda incerta se poderia comer ou não, decidi tomar apenas uma vitamina de banana no café. No almoço, só depois de fazer um prato de salada com um pedaço de quiche e uma salada de macarrão pude perceber que meus três dias estavam acabados e poderia comer minhas guloseimas novamente. Lembrei que essa foi a mesma sensação que senti quando voltei a usar internet. Um misto de novidade com proibido, de renovação e saudade. É bom sair do piloto automático às vezes. Mesmo que seja para policiar-se.
Uhu! Cumpri mais um desafio que mexeu um pouco mais com minha vontade e resistência. Acho que posso até viver sem massa, mas vai continuar faltando a tal da sustância. Claro que vou precisar repetir esse desafio mais vezes, mas não sou nem louca de fazer isso em pleno Dezembro. Por enquanto, apenas uma sugestão que ainda está sendo levada em consideração pelo meu EU vigilantes do peso e o meu EU obesa mor: massa fica reduzida a uma vez por dia. Até o final desta edição, meus EUs ainda não haviam entrado em consenso.
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