Dia 1
De pulso, obviamente. Porque talvez não haja nesse mundo ser humano que
não faça a tal pergunta: Que horas são? Todo mundo quer saber disso, como se
fosse a coisa mais importante a se saber. Como se sua vida dependesse dos
números que são apontados pelo objeto por vezes circular. A bem da verdade, nós
dependemos sim. E essa dependência muitas vezes tem se tornado irritante. Como
se o tic TAC que pulsa em meu pulso toda vez que tudo fica em silêncio mostrasse
a bomba relógio que sempre está prestes a explodir, mas nunca o faz,
saboreando-se sempre com a ânsia do outro que fica a escutá-lo e lê-lo,
esperando, esperando. Sim, o Tempo passa e com a ajuda de sua amiga Gravidade,
tudo cai.
Desde pequena sou aficionada por relógios. Marca é o que menos importa.
O que conta mesmo é a quantidade. Lembro do bate- enrola verde e amarelo com a
pulseira do Sprite que ganhei em uma das promoções da Coca Cola. Quem nunca
teve um desses acessórios paraguaios que cantava uma musiquinha? Aí vieram
também os pobres falsificados e já um pouco grandinha demais, tive um imenso
roxo e verde relógio do Shrek. Não me orgulho disso. mas como eu disse antes, o
importante era o tanto. Atualmente esse tanto minguou, vieram as vacas magras,
muitos quebraram pulseiras e outros muitos foram-se embora junto com as
baterias.
Nesses últimos dias, entretanto, a hora é o que menos tem me importado.
E ao mesmo tempo, é tudo o que eu tenho contado. Nessa estranha e angustiante
dicotomia vi-me desprovida de relógio. Certo incômodo apoderou-se de mim,
confesso. Por onde andavm todos os meus quatro ou cinco relógios que não ao
alcance de minha mão? Nesta mudança de casa estou perambulando por vários
cômodos e em todos eles vou deixando meu rastro. É um brinco, uma pulseira, o
celular, um sapato, um relógio. Então, na pressa de sair de casa não dei-me ao
luxo de procurar pelo objeto que conversa com Cronos. A falta do peso no meu
pulso esquerdo deu lugar a uma pergunta: será que eu consigo?
Sim porque ser pontual é um principio para mim. Desde pequena infernizo
a vida da minha família quando o assunto é chegar atrasado. Meu marido constata com excessiva
intolerância e falta de bom humor sempre que o tópico está ligado a viagens. Simplesmente
detesto, tenho ojeriza a chegar no lugar depois do horário marcado. E também
abomino o ser que chegar tempos depois do compromisso marcado.
Talvez tenha sido uma daquelas
britânicas, carolas e caxias em uma vida passada. Por isso o fato de eu ter um
relógio para marcar meus passos seja tão importante nessa atual. Resolvi
abraçar a ideia e desapegar do TIC e do TAC. O incomodo permaneceu e tive que
procurar pelos ponteiros várias vezes. Quando não o achava, recorria ao
celular. O que não é a mesma coisa. Ver as horas no pulso e em um visor digital são experiências completamente
diferentes. No segundo a surpresa some porque não existe a dificuldade de ler a
hora. Mas para quem sofre um pouco de discalculia e tem que lembrar que devemos
multiplicar o número que lá aparece por cinco, aí é outra emoção.
Então hoje meu marca passo não me marcou. Perdi horas e ganhei tempo.
Perdi tempo e ganhei horas.
Dia 2
Status. Relógio não marca só hora. É também um símbolo de status.
Porque, querida, se você não tiver um Michael Kors de cerâmica, porcelana ou
madrepérola no braço, está perdida. Ai de você se sair sem o seu Guess super
cheio de strass. Até parece que as horas valem mais se marcadas por uma marca
suíça ou internacionalmente conhecida. O pessoal não quer mais perguntar as
horas, quer saber, o que marca as horas. Já passei desse tempo. Hoje meu
relógio favorito é um que comprei no Walmart de 10 conto. E meu segundo
favoritinho é um que comprei no centro da cidade cuja marca é algo parecido com
Sweet. Um doce mesmo. para minha surpresa o aparelho no pulso foi requisitado.
Além da sensação está faltando alguma coisa, alguma coisa está fora da ordem
mundial, eu senti uma certa tensão por não poder ver os benditos ponteiros na
hora que eu quisesse. Sim, porque não é fácil abrir a bolsa, catar o bolsinho e
por fim tirar o celular que ainda por cima está travado. É muito perda de
tempo. sim, confesso que fiquei um pouco desnorteada tendo apenas a ideia do
horário. Tá com cara de cinco. A fome apertou, deve ser umas sete. Se eu pelo
menos soubesse olhar o sol a confirmar as horas... Mas percebi que posso
perfeitamente dizer o tempo pela programação televisiva. De preferência, Globo.
E por hoje foi ótimo. Apesar do que nas duas vezes que saí a sensação chatinha
que me acompanhou de estar constantemente esquecendo, o braço muito leve,
percebi que não era apenas o objeto em si que me faltava.
Relógio também é uma muleta psicológica. Na hora em que lá estava eu
assistindo a palestra há não sei quanto tempo, com a bunda já dormente, tinha
certeza que estava perto de terminar. Mais uma vez a preguiça de procurar o
celular me assaltou e puxei o braço de mamãe, que por sinal, usava um Fossil
minúsculo para afogar minha ansiedade. Ainda sobrava tempo. então fui
procurando ler as horas nos relógios alheios da plateia concentrada que pouco
importava o que os ponteiros teimavam em me mostrar.
Sim, eu tinha tempo. Mas tudo o que eu realmente queria era o meu
relógio.
Dia 3
Viajei para Canoa Quebrada. Uma praia linda, de águas claras e geladas
em uma pousada maravilhosa. Resumindo, quem precisa de relógio? Eu não queria
nem que as horas passassem, imagina ter que contá-las. E eu literalmente me
perdi no tempo.